sexta-feira, 7 de agosto de 2009

O QUE DIZER?

Quer saber a verdade?

Não sei o que dizer. Estou, no mínimo, aparvalhado, envergonhado e constrangido!

O que assisti ontem - 06.08.2009 - pela TV Senado, durante a sessão ordinária no plenário do Senado Federal, foi a encenação de uma tragicomédia. Uma chanchada que não está à altura daquelas memoráveis produzidas pela extinta Atlantida nos ‘50. Um dramalhão mexicano desprovido da mais rudimentar autocensura crítica. Um libelo panfletário (perdão pela redundância) bem ao estilo folhetim dos cordéis.

A que ponto se extenderá a vaidade humana?

Até onde alguns homens refutarão a existência de Deus e, por consequência, não sentirão por Ele qualquer respeito ou temor?

Qual o valor da pecúnia ou bem material, capaz de satisfazer a desmesurada ganância que se denuncia nos olhos dos proxenetas do oportunismo, dos aliciadores da cupidez ou dos capitães da barbárie?

Por acaso a desfaçatez, a incúria com o interesse público, o cinismo, a agressividade gratuita e outros adjetivos desse jaez são os que qualificam o Poder?

Será que foi apagada dos anais a máxima que ensina:

“Para ser respeitado, antes há que se respeitar”.

Não há de ser proferindo impropérios e injúrias contra os pares que serão assegurados direitos preconizados pela Constituição. Democracia não se parece, nem de longe, com intransigência e revanchismo, quanto mais, com falta de compostura e de boas maneiras. Aliás uma das maiores falácias que querem nos impor é que (e não de que como querem muitos) vivemos a plenitude de um Estado Democrático de Direito. Assim fosse e alguns mamparras, afeitos a compadrios e falsetas, não se elegeriam sequer como representantes de quarteirão nos bairros onde residem.

Cavaleiros da legalidade que a um tempo destilam vocábulos incompreensíveis aos menos doutos  como, hebdomadário, deblaterante, parlapatão, encenando uma falsa respiração abdominal que lhes evitaria a perda de controle, tanto do timbre vocal, quanto do gestual, no tempo seguinte retomam o nível chulo do baixo calão teatralizando o bizarro.

Suas Excelências, e não ressalvo exceções, acabaram por se transmutar em uma massa amorfa, de textura inconsistente, que vaza pelos vãos dos dedos de quem quiser sopesá-la. Os que se sentirem mal julgados pela afirmação que se afastem. Renunciem a seus mandatos e deixem a caterva sobrenadando o próprio vômito ácido e putrefato. Aqueles que não aceitam a carapuça que se lembrem:

“Quem não quiser ser confundido com ursos que não lhes vistam a pele”.

“Diga-me com quem andas e te direi quem és”.

Ontem a dado momento, um ocupante da tribuna em sua fala se referiu a uma “maoiria silenciosa”. Que maioria é esta? Quem presencia, por dever do mandato, e se cala diante da demonstração flagrante de destempero e impropriedade parlamentar, que há dias insulta o combalido Senado da República, ou é conivente ou dela tira proveito.

A quem pensam que enganam?

Não pensam. Algumas poucas camisetas adornando outras tantas cestas básicas, encimadas por cartões plásticos que “erradicam a miséria”, serão suficientes para os reconduzir a novos e recorrentes mandatos. Continuarão impunes aos desmandos e surrupios do erário público. Retornarão felizes e orgulhosos, aferrados ao poder menor do nepotismo para auferir vantagens, vencimentos e reembolsos obcenos.

O entorno de descalabros insustentáveis que cerca os Poderes da República, ao contrário do que afirmam alguns, levará sim a algum lugar. Levará à inação que precede o colapso e invariavelmente resulta na sucumbência total.

O Brasil vem se transformando num lagar onde fermenta o mosto da mentira, fruto do descaso e do personalismo que gangrena os poderes constituídos, erigidos com muito esforço por gerações passadas. Um vinho acre, de aroma nauseabundo, será brevemente servido em taças embaciadas de sal.

Antes fosse uma ameaça, uma bravata, ou até mesmo uma leviandade, porém, infelizmente, é uma cristalina constatação.


O. A. Siqueira Jr.

domingo, 26 de julho de 2009

SEÇÃO DE CLASSIFICADOS NO DOU?

"Trudia" tive em mãos um exemplar do Diário Oficial da União, conhecido pela sigla DOU. Não é de se perguntar, dá o quê a quem? Bem, deixemos os prolegômenos de lado e vamos ao fato que me causou espécie.

Folheava a citada publicação, tranquilamente, fazendo aquele movimento de abrir braços para olhar duas páginas simultaneamente, seguido de um meneio de cabeça (como se assistisse a um jogo de tênis) e, fechar braços novamente para, com a ponta do polegar da mão esquerda, selecionar as próximas duas páginas. Eis que, não mais que isso, me deparo com algo estranho. A princípio me pareceu ser um anúncio classificado!

E não é que era...!!! Mas como? Será possível publicar classificados no DOU? Refleti atônito. A quem haveria sido “DOUada” a inusitada oportunidade?

Como qualquer mortal, tomado de espanto, me pus a ler o tal anúncio.

Não faria o menor sentido tecer comentários a respeito, portanto, prefiro reproduzir a íntegra do conteúdo estupefaciente.


PROCURA-SE NETA PARA NAMORAR!

Moreno, alto, bonito e sensual procura neta para namorar.

Talvez eu seja a solução do seu problema. Carinhoso, bom nivel social.

Inteligente e à disposição para um relacionamento íntimo e discreto. Realize seu sonho sexual!

Pronto para qualquer tipo de transação, sem compromisso emocional. Só financeiro.

Sou aquele amante à moda antiga, do tipo que ainda manda flores e, apesar da minha idade e, da cara meio inchada, ainda chamo de querida a namorada.

Olhos verdes, cabeleira farta em permanente desalinho e “tico-tico no fubá” (nem casado nem solteiro. Sei lá, entende? Enfim!). Um pouco avançado nos anos, porém, em plenas condições de uso e desfrute. A toda prova para a revisão dos “51.000 km”. Politicamente incorreto.

Predicados exigidos das candidatas ao cacho:

• pertencer a uma família de políticos influentes ou, então, de membros atuantes da ARECON (Associação Regional dos Coronéis Nordestinos), mantendo estreitos laços de amizade e apadrinhamento com empresários corruptores. Dar-se-á preferência àquelas que tenham avô senador e pais atuantes em nepotismo cruzado.

• aparência impecável, não somente dos atributos físicos, como também, no vestir e no comportamento em público. Barangas me perdoem, mas, ser um “BixoBão” é pré requisito homologatório!

• comprometer-se com os interesses do namorado.

• experiente no manejo de telefones celulares SmartPhones (BlackBerry, iPhone, etc).

• doutorada em Ocultismo com especialização em Atos Secretos.

• graduada em redação e despacho de requerimentos, petições, aditamentos de orçamentos, etc.

• praticante de clientelismo e fisiologismo; vivência em “trens da alegria”.

É fator preponderante possuir uma agenda com telefones e e-mails de políticos e correligionários de destaque na cena política nacional.

Preferências do Pretendente:

• auxílios específicos para as despesas com:

•• moradia,

•• segurança pessoal,

•• barbearia e cabeleireiro,

•• academia de fitness,

•• seguro saúde (vitalício, é claro),

•• assistentes,

•• empregados domésticos e...

...o que mais houver à disposição.

• “mesa branca” em restaurantes finos.

• passagens aéreas de cortesia.

• reembolso de despesas de viagem.

• automóveis importados com chapa branca e chofeur.

• apropriação de dinheiro público.

• negociatas e quetais.

Detesto e abomino a imprensa, a Polícia Federal, Leis em geral e “Meu nome na boca de Matildes”, (conforme preconizou o eminente Jô Soares).

Povo? Nem em foto!

Ajuda de Custas (Afinal, tudo são processos...)

Proporcional aos proventos auferidos pela atuação da eleita. Gratificação anual a combinar.

Interessadas devem enviar Curriculum Vitæ, com foto, para lero-lero@eutambemquero.com.br ou para o escritório do ex-suplente de senador Wellington “Sansão” Salgado - Praça dos Três Phoderes - Barraca SenadoFede - Brasinha - DF (Dinheiro Fácil)


O. A. Siqueira Jr.


NOTA: Os trechos em cor azul foram retirados das letras de “Amante Profissional” e “Amante à Moda Antiga”, respectivamente, composições da banda “Herva Doce” e Roberto/Erasmo Carlos. Não perca na seção "Clique & Ouça", na barra lateral, “O Clipe da Neta Namorada” interpretado por Painho & Co. com os trechos selecionados. Na mesma seção, ouça as duas músicas na íntegra.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

UMA NOTA DIRIGIDA AO HOMEM PÚBLICO BRASILEIRO

A cada dia fico mais indignado, confuso e revoltado com a quantidade de denúncias envolvendo nomes ligados, direta e indiretamente, aos integrantes da classe política brasileira. Algumas revestidas de tal gravidade que, confesso, fico propenso a duvidar.

Uma epidemia de desordem e descaramento contaminou todos os poderes constituídos, nos três níveis de poder e nos respectivos departamentos. Autoritarismo verborrágico, desmandos e corrupção!

Não vou me ater a exemplos, pois, são tantos e de tal variedade que, ainda que ilustrassem, não seriam suficientes para dimensionar o exato grau de vilipêndio contra evidentes princípios de decência, honestidade, honradez, consciência democrática e espírito republicano. Ademais, são de domínio público os atos, fatos, valores, personagens e instituições envolvidos nos escândalos denunciados, dispensando citações específicas diante da generalidade flagrante.

As mentiras e falsidades proferidas nas declarações e pronunciamentos são constrangedoras. Não somente pela fragilidade de argumentação, como pela indiferença estampada nos rostos e serenidade nas vozes de quem as profere. Tenho a impressão que logo após o escárnio, seus autores tem dificuldades para conter as gargalhadas. Um estelionato intelectual aditado ao pecuniário e ao patrimonial.

É tão evidente a falta de decoro que a existência de Comissões de Ética é dispensável, mesmo porque não cumprem seu desiderato, ao contrário, seus membros se aliam nos compadrios sob o falso manto da legalidade regimental. Ora, um regimento que prescreve o tratamento de “Vossa Excelência”, portanto, segunda pessoa do plural, quando o correto seria “Sua Excelência”, terceira pessoa do singular, tempo verbal utilizado tanto nos debates entre os parlamentares, quanto em seus discursos e pronunciamentos. Uma prosopopéia burlesca que bem ilustra a semialfabetização de tantos detentores de mandatos eletivos.

A volubilidade ideológica é manifesta sempre e quando se viabilizam conluios que beneficiem os interesses inconfessáveis que premiam o oportunismo. Mudança de posição, de partido, fragilidade de caráter, ganância desmedida, não importa! O que vale mesmo é o quanto se aufere, seja em vantagens, cargos ou dinheiro em espécie. Dinheiro este, público, arrecadado por via de uma política fiscal desbalanceada, injusta, incongruente, obsoleta, inconsistente e indecente.

Se ve de tudo nos parlamentos brasileiros, desde alegorias capilares em ambos os sexos, trajes inapropriados, descura com a aparência física, desconhecimento do idioma, falta de postura adequada no atendimento à midia, até o cabotinismo hilário de pretensos senhores da virtude. Como diz a sabedoria popular: “Se cercar é pasto, se cobrir é circo”

Triste realidade a do Brasil. E não é de hoje! Pior, será ainda por longo tempo, pois, já não se educam cidadãos como se fazia antes que sucessivas súcias se assenhoreassem do poder e, pelos interesses continuístas, sufocassem a formação de homens de bem. Não haverá reformas de base que destituam do poder os bandoleiros que dele se apossaram graças aos votos incautos dos ignorantes, que por desdita são a maioria esmagadora do povo. Pobre minoria “esmagada”.

Em 1973 Ronaldo Monteiro de Souza escreveu uma letra, Ivan Lins uma música e, ambas, deram origem à “Deixa Eu Dizer”. Um repto ao regime que amordaçava o Brasil. Neste mesmo '73 a cantora Claudia, com uma notável interpretação, incluiu-a no LP de mesmo nome. Leia a letra da música e você entenderá o que sinto ao escrever e...

...Por enquanto é só!



O. A. Siqueira Jr.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

A "VELHA CAMISA DE GOLA ROULÉ"

Era um dia quente de fevereiro, lá pelo ano 2000.

Eu estava na casa de Izabel quando ela se aproximou com algo de cor verdemusgo nas mãos e me perguntou:

- Você gosta desta camisa? Eu trouxe da Argentina o ano passado, mas até hoje não usei.

Quando foi desdobrada, vi que se tratava de uma linda camisa de malha dupla de algodão com gola roulé.

- Gosto sim! Respondi.

- Você ainda não usou por ser uma camisa de inverno? Perguntei estranhando o comentário dela.

- Não, não! Sei lá, de repente não gosto mais da cor. Quer pra você?

- Claro que sim, além de gostar da cor, também gosto muito de gola roulé.

- Então ela é sua, tenho certeza que ficará muito bem em você.


Agradeci Izabel com um beijo na face e, recebendo o presente, senti que naquele momento estava nascendo uma agradável relação entre eu e minha nova “velha camisa de gola roulé”.

Estávamos no verão. Olhando para a camisa em minhas mãos lamentei que não estivesse frio, um mínimo que fosse, para eu poder vestir e avaliar o conforto que ela me ofereceria. Afinal, uma camisa de malha se amolda qual uma segunda pele e, como tal, passa a fazer parte da nossa intimidade. Se o coração bater mais acelerado ela é a primeira a sentir, se coramos de vergonha ela é a primeira a notar a temperatura do corpo.

É no frio, porém, que ela mostra ao que veio. Torna-se a guardiã do peito, das costas, dos braços. Não esqueçamos do pescoço, pois, para que serve uma gola “roulé”? Não há abraço, por mais afetuoso e envolvente que seja, comparável ao de uma “velha camisa de gola roulé”.

Aguardei pacientemente que o dia chegasse. O dia em que a vestiria por vez primeira. Toda vez que abria a gaveta da cômoda, lá estava ela como a me perguntar: - Então, quando será nosso grande momento? Meio agitado eu desviava o olhar e tentava descobrir quantos faltariam para que, finalmente, chegasse um dia frio e nos proporcionasse esse grande momento.

Nos primeiros dias de inverno daquele ano o frio não se manifestara e parecia que teríamos um inverno muito ameno. Fiquei preocupado!

Todas as manhãs ligava o rádio cedinho para ouvir a previsão do tempo. As decepções se sucediam, mas, um belo dia veio a previsão ansiosamente esperada: “O dia hoje será frio por conta de uma frente de ar polar que se aproxima da capital. Mínima de 10º e máxima de 21º.” Uma voz dentro de mim gritou: - Eeeiiittttccchhhaaa!!! É hoje...

O “hoje” era uma quarta-feira que não insinuava qualquer estímulo para um programa, mesmo que fosse jantar fora, coisa que se faz mais às sextas e sábados. Nenhum aniversário, nenhuma visita programada para fazer ou receber, um "batizadinho" que fosse...

Que fazer? Depois de tanto tempo esperando não iria perder essa oportunidade. Quem sabe quanto tempo demoraria a vir outra frente polar? Não senhor, tem que ser hoje!

Fui para o trabalho pensando num programa que justicasse estrear minha nova “velha camisa de gola “roulé”. Perguntei a vários colegas o que cada um iria fazer à noite na esperança de um convite, desde que o traje não fosse social. Só faltava arranjar um programa de terno e gravata!

Acabada a jornada de trabalho, sem nada acertado para a noite, fui embora visivelmente cabisbaixo. Entrei em casa e fui logo tomar banho. Enquanto me despia... Eureka! 

Uma idéia me ocorreu. Por que não convidar a vizinha do apartamento ao lado para vir ao meu e saborearmos um bom vinho? Eis a oportunidade para estrear minha nova “velha camisa de gola “roulé”!

Vesti um conjunto de moleton e fui bater à porta do 238. Aguardei com os pulsos latejando de ansiedade.

- Pois, não? Disse uma voz aveludada pelo postigo e emendou:

- Ah! É você? Entre, disse ela abrindo a porta...

Agradeci e formulei o convite. Ela meneou a cabeça como quem pensasse a respeito, esboçou um sorrizinho maroto e aceitou, não sem antes solicitar um "tempinho" para se arrumar um "pouquinho". Pensei comigo, "tempinho"?

Voltei correndo para o banho. Caprichei nos detalhes, no perfume e, finalmente, chegou o momento. Vesti minha nova “velha camisa de gola “roulé” lentamente, sentindo cada centímetro da sua malha acariciando progressivamente minha pele. Confesso, meio acabrunhado, que a sensação teve algo de sensual.

À medida que ela - a minha nova “velha camisa de gola “roulé” - foi deslizando pelo pescoço, braços e tronco, constatava que ela ficaria muito bem em mim, confirmando aquilo que a Izabel previu ao me presentear. Fiz questão de combinar todas outras peças que vesti com a tonalidade verdemusgo dela. Calça em meio tom de havana, meias verdemusgo, mocassin cor de conhaque igual a da cinto. Me olhei no espelho e vendo nossa imagem juntos senti um calorzinho gostoso no peito. Bah!

Estava eu entregue às sensações proporcionadas pela minha nova “velha camisa de gola “roulé”, quando soou a campainha. Pensei..., já? Não me dera conta de que quase uma hora se passara desde que convidei a Sônia - este é o nome da vizinha do 238 - para desfrutarmos um Chateauneuf Du Pape, 1964. E eu que, com os meus botões, fiquei irritado com o “tempinho” que ela pediu para se arrumar um “pouquinho”...

Quando atendi à porta, Sônia me “escaneou” de cima a abaixo com um olhar daqueles e sorrindo exclamou: - Nooooossssaaa que gatinho!!!!


Não foi sem tempo que o dia chegou. Além de desfrutar de uma agradável companhia, de um bom vinho, experimentei a sensação indescritível que minha nova “velha camisa de gola “roulé” proporcionou. Seu tato surpreendente, corte impecável, cor relaxante, só fizeram realçar sua discreta beleza.

Foi assim que teve início nossa relação homem-camisa. Sempre que torno a vesti-la, um filme passa pela minha mente relembrando aquele dia. Com o passar do tempo o sentimento continua o mesmo, mas, por efeito de tantas lavagens sua cor está um tanto esmaecida sugerindo as cãs de uma bela senhora. Tantas e quantas vezes nos unimos para curtir festas, passeios, jantares, coquetéis... Sempre me aquecendo com seu abraço de acalanto, exibindo seu porte nobre e atraindo olhares de inveja. Fico triste em pensar que chegará o dia em que teremos que nos separar, mas o tempo é inclemente.

Virá o dia em que minha “velha camisa de gola “roulé” nova, alcançará a condição de “velha camisa de gola “roulé” velha. Nesse dia eu a guardarei lavada e bem dobrada num cantinho especial da gaveta de camisas. Depois disso sempre lembrarei dela como minha querida “velha camisa de gola “roulé” velha.


O. A. Siqueira Jr.


Essa crônica é dedicada à minha querida e velha amiga Izabel F. Fry



quarta-feira, 10 de junho de 2009

...E POR QUE?

Porque cansei.

Cansei de quê?

De tudo, principalmente da espécie humana, apesar de, pela vontade de Deus, eu fazer parte dela. Mas nem mesmo essa condição me impede de enxergar com muita clareza a torpeza que contaminou a raça.

Não sou um modelo de virtude que se arroga o direito de julgar seus semelhantes baseado em idéias e conceitos próprios, inspirados na vaidade, fato que revelaria uma vil pretensão de me mostrar melhor que outrem, seja pela forma de pensar, sentir, agir ou omitir. Não, apenas continuo fiel aos princípios que me foram transmitidos durante a vida, os quais, me garantiram aqueles que mos ensinaram, estariam acordes com os valores morais e éticos destinados a pautar as relações entre os homens.

Princípios que revelam sabedoria a despeito da simplicidade que os caracteriza, como por exemplo, “não mentir”. A mentira é antes de tudo - ou pelo menos deveria ser - um tormento para a consciência de quem mente, já que, é impossível mentir para si próprio. Dita a mentira há que se preocupar em sustentá-la eternamente, enquanto a verdade não requer explicações ou justificativas. No entanto, a mentira campeia pelo mundo afora, prometendo, enganando, difamando, desestabilizando, provocando, promovendo intriga, discórdia e revolta.

Não se apropriar indebitamente de algo que não lhe pertença de fato ou por direito. Em palavras mais simples: não roubar, não furtar. Não se valer de meios insidiosos para obter vantagem pecuniária ou de qualquer outra natureza. Eis um princípio dos mais comezinhos que sucumbiu à sanha de empresáros de diversos ramos da atividade humana e da classe política da maioria dos países. Um dito popular rege as relações econômicas e financeiras no mundo moderno: “Farinha pouca, meu pirão primeiro”.

Tratar seus semelhantes com civilidade e respeito, notadamente os mais velhos, de modo a não afetar o equilíbrio e a harmonia do convívio pacífico, a despeito de raça, cor, credo religioso, posição política, convicções pessoais ou outra variável de comportamento. Um princípio básico no capítulo das boas maneiras que foi abandonado e não mais consta do currículo escolar fundamental. Tratar alguém por “senhor” ou “senhora” perdeu o sentido entre os mais jovens e tornou-se piegas ou, como dizem eles, “não tem nada a haver”.

Controlar o tom da voz em locais públicos; preservar bens comunitários; zelar pela higiene; respeitar filas; obedecer normas, regulamentos e leis; conscientizar que a liberdade de qualquer indivíduo termina exatamente onde tem início a do seu concidadão, são outros princípos e valores humanitários relegados ao ostracismo.

Assiduidade às aulas, às jornadas de trabalho, respeito à autoridade, à hierarquia. Pontualidade nos compromissos, respeito e reverência à Natureza, desfrutando das benesses sem devastar os meios que as propiciam. Atualmente não passam de procedimentos com prazos de validade vencidos.

Essas são minhas breves constatações do desalinho a que nossa espécie se entregou. Não se trata de conflito de gerações, tampouco de inconformismo frente à evolução dos tempos, mas sim, de profunda tristeza provocada pela perda de esperança nos próceres, nos jovens - que terão em suas mãos os destinos da humanidade - e a incapacidade de reagir para alterar o status quo.


O. A. Siqueira Jr.

... DESCULPE, MAS NÃO FUNCIONA!

Há pessoas cujo comportamento me irrita sobremaneira. São as que insistem em defender pontos de vista, modelos, sistemas de governo e teorias que se mostraram equivocados, ineficientes, perversos e superados no tempo pelo desgaste advindo dos resultados degradantes que provocaram.

São beócios que se valem dos mesmos discursos que atravessaram décadas tentando, em vão, fazer que pessoas acreditassem que a redenção para todos os males estaria na prática de atitudes incompatíveis com seus instintos naturais. Conseguem, porém, cooptar a ignorância de incautos que, infelizmente, se consagra como maioria esmagadora. Aí da minoria esmagada!

Dona Alice, minha professora de História Geral no Ginasial e no Científico, repetia com frequência um pensamento que aprendi a respeitar: “ao longo da História os fatos e os fenômenos sociais se repetem ciclicamente”. Lembro-me que certa vez questionei Dona Alice: Quer dizer que o Homem não aprende com a História? Não, respondeu. O Homem aprende História mas não aprende com a História, completou ela.

À medida que evoluem os meios de comunicação e a tecnologia propicia mais meios de produção e desenvolvimento, seria de esperar que pretensos líderes propusessem discursos inovadores, contendo propostas condizentes com a “intelligentia” brotada da evolução. Mas, como disse Chico Buarque em Com Açúcar, Com Afeto: “Qual o quê!”

Prova disso?

Hugo Chávez, Evo Morales, Rafael Correa, Luís Inácio Lula da Silva, Dilma Roussef, José Dirceu, José Genoíno, Marco Aurélio Garcia, Aldo Rebelo, Nikita Kruschev, Lenin, Trotsky, Tarso Genro, Ricardo Berzoini, Leonid Brejnev, Fulgêncio Batista, Fidel Castro, Rafael Trujillo, Agostinho Neto, Idi Amin Dada, Generalíssimo Francisco Franco, António de Oliveira Salazar, Adolf Hitler, Nicolæ Ceausescu, Daniel Ortega, Radovan Karadzic, Alfredo Stroessner, Alberto Kenyo Fujimori, Muamar al-Kadhafi, Saddam Hussein, Benito Mussolini, Jean-Claude Duvalier (O “Baby Doc”), Claude Duvalier (O “Papa Doc”), Josip Broz Tito, Anastásio Somoza, Gamal Abdel Nasser, Jorge Rafael Videla, João Baptista Figueiredo, Ernesto Geisel, Emílio Garrastazu Médici, Erasmo Dias, Newton Cruz, Sérgio Paranhos Fleury, Leonel Brizola, Paulo Salim Maluf, Gilmar Mendes, Nelson Jobim, Fernando Collor de Melllo, Anwar Sadat, Mohamed Reza Pahlevi (O Xa da Pérsia), Aiatolah Komheini, Robert Mugabe, Salvador Allende, Augusto Pinochet, Slobodan Milosevic, Ferdinand Marcos, Imelda Marcos...

Esquerda revolucionária contra Direita reacionária?

Não, imbecilidade contra irracionalidade; vaidade contra ganância; egocentrismo contra demagogia; fisiologismo contra centralismo; ...

Poder pelo Poder.

E o Centro?

Ah, esse ganha de um lado e de outro só para continuar alienado e omisso.

Até quando???


O. A. Siqueira Jr.

segunda-feira, 8 de junho de 2009