[Até que ponto haverá sido por nossa culpa?]
Tempo I
Cento e cinqüenta e nove dias antes que eu completasse dezoito anos de idade, o Brasil era informado que os militares assumiram o poder do estado por meio de um golpe. Era 31 de março de 1964, uma terça-feira.
Recorri a meu pai para que me explicasse o que significava um golpe de estado. Entendidas as conseqüências, queríamos todos - meu pai, eu e todos os brasileiros - entender as causas. Por anos tentaram nos convencer de que havia um perigo iminente rondando nossas cabeças: um regime comunista, de inspiração bolchevista, estaria preste a se instalar na República Brasileira.
Essa foi a falácia usada para submeter-nos ao estelionato intelectual que durou quase trinta anos e do qual, até hoje, purgam conseqüências. Uma oligarquia truculenta articulada na proteção dos interesses de grupos econômicos e minorias intelectuais próximas ao círculo do poder - aquelas historicamente rotuladas como elites reacionárias pelos revolucionários de esquerda.
A precariedade das comunicações de então, corroborada pelo instituto da censura prévia, impediram que o Brasil visse a imagem de Tancredo Neves gritar, por repetidas vezes, a palavra canalha dirigindo-se à mesa do Senado Federal. Ali, Auro de Moura Andrade, presidente do Congresso Nacional, declarava vaga a Presidência da República e dava posse a Pascoal Ranieri Mazilli, Presidente da Câmara dos Deputados, como primeiro mandatário da nação. Um ato espúrio que envergonha os anais do nosso parlamento. A justificativa dada ao povo foi que o Presidente da República abandonara o cargo, ausentando-se do país sem prévia licença ou aviso. Algum tempo depois se soube que João Goulart fora para o Rio Grande do Sul, seu estado de origem, intencionando por em prática um plano de resistência.
Culminava em êxito um golpe de fancaria cuja origem remontava às pressões sofridas por Jânio Quadros e que o levariam à renúncia em 25 de agosto de 1961. Pressões draconianas nominadas como “forças ocultas”, cuja identidade dos agentes Jânio preserva no túmulo.
Para dar posse ao constitucionalmente eleito vice-presidente João Goulart, inventaram a figura de um parlamentarismo canhestro, que a posteriori, quando plebiscitado em 1963 ensejou o retorno do presidencialismo. Mau sucedida a tentativa de esvaziar o poder do cargo presidencial, partiram os arautos da liberdade e da democracia para a caça ao pescoço de Jango.
Rapidamente uma junta tripartite, formada pelos ministros militares, instalou-se no Planalto e passou a governar efetivamente. Ranieri Mazilli permaneceu no posto a que fora guindado apenas até 15 de abril, quando transmitiu a faixa presidencial ao Marechal Humberto de Alencar Castello Branco, casuisticamente eleito dias antes pelo Congresso Nacional.
A partir de então seriam escritas as mais turvas páginas da história brasileira em qualquer tempo. A Constituição foi violentada por Atos Institucionais, cujas íntegras ignoravam os mais comezinhos valores republicanos, fazendo o Estado de Direito esboroar-se pelos tribunais militares e porões da ditadura. Cassações sumárias desarticularam o arcabouço político com a intenção estratégica clara de inibir qualquer reação organizada e pautada na legalidade. O Congresso Nacional assume um papel meramente homologatório e em 13 de dezembro de 1968 é fechado por represália à negativa da Câmara em punir o Deputado Márcio Moreira Alves, que pronunciara meses antes um discurso em que concitava o povo a abster-se do comparecimento às festividades de 7 de setembro. No mesmo dia em que o Congresso Nacional foi fechado era decretado o execrável Ato Institucional Nº 5. Cassações, exílios, desterros, perseguições, torturas. A inteligência brasileira seria brutalmente mutilada.
Os anos foram se sucedendo e ao povo vendiam a idéia de que o Brasil estaria sendo saneado. A erradicação da corrupção e o crescimento econômico garantiriam melhor qualidade de vida aos brasileiros. A revalorização do atendimento às necessidades básicas como educação, saneamento, moradia própria e saúde, seria o reflexo do aumento do poder aquisitivo dos salários e da oferta de novos postos de trabalho.
Eu fui um daqueles que se envolveu na campanha cívica para quitar a dívida externa brasileira: “Doe Ouro Para o Bem do Brasil”. Ajudei a arrecadar na escola, na família e entre os amigos pequenas peças de ouro. Estampando orgulho na face fui entrevistado pelo apresentador da TV Tupi, Homero Silva, no saguão dos Diários Associados na Rua Sete de Abril em São Paulo, quando representando minha escola entreguei uma significativa contribuição à campanha. Como recibo me deram algumas alianças de estanho onde se lia: Eu Doei Ouro Para o Bem do Brasil. Como tantos outros brasileiros fui vítima daquele estelionato cívico em que se trocava muito ouro por pouco estanho, como se não soubéssemos o valor intrínseco do ouro e a reserva de valor que representa.
Na tentativa de “tapar o sol com uma peneira”, o regime ensaia débil tolerância a uma oposição, não menos débil, querendo insinuar ares de democracia quando a simples referência à palavra liberdade era motivo de repressão. Uma censura burra, semi-analfabeta, desprovida de perspicácia e de bom senso, impedia que o papel crítico das artes e da imprensa se manifestasse, desperdiçando um “feed back” de muita valia na correção dos rumos da sua própria intolerância. Hoje, estórias protagonizadas pelos censores que tentaram amordaçar consciências indômitas e algemar penas hábeis recheiam o anedotário popular. Tornou-se lendária a “Gripe Coletiva” que acometeu toda a equipe da redação d’ O Pasquim. Um ardil cômico dado em resposta à descabida prisão dos jornalistas e cartunistas responsáveis pelo tablóide semanal. Triste legado.
Chega a década de 70 e com ela o slogan: Brasil, Ame-o ou Deixe-o! Ufanismo e euforia! A era dos índices é inaugurada e uma avalanche de números queria cristalizar no pensamento nacional a idéia de que vivíamos em um paraíso. Na tentativa pífia de reviver a política do “Pão e Circo” da era romana, os militares imiscuiram-se no preparo e condução da Seleção Brasileira de Futebol. Demitiram o técnico João Saldanha - comunista confesso – que respondeu ao “pedido” do General Médici para que Dario, do Atlético Mineiro, fosse convocado, com uma frase que se tornou célebre: “Ele [Médici] escala o ministério e eu escalo a seleção”. Um contingente de militares assumiu o controle da comissão técnica e, no mesmo instante em que foi “convidado” para ser o treinador que levaria a seleção à Copa do México, Zagallo anunciou a convocação de “Dadá Maravilha”, alcunha auto-atribuída pelo jogador que passou a Copa inteira no banco de reservas.
Garantida a pasteurização da opinião pública, os desmandos grassaram à vontade da neoclasse política gerada em 1966 e ampliada pelo “Pacote de Abril de ‘77”: os eleitos por indicação ou indiretamente na dualidade do bipartidarismo. Prefeitos, governadores e senadores assumiam mandatos sem a legitimidade do voto.
Ficaram conhecidos como “biônicos”, pela inferência a uma série de TV da época em que os poderes do herói resultavam dos implantes bioeletrônicos nos seus membros. Um espécime muito representativo daquela geração de homens públicos: Paulo Salim Maluf.
Os estamentos sociais no Brasil reduziram-se a apenas dois: militares e apaniguados. O resto era o resto! Quem não concordasse que fosse embora. O Brasil era apenas para quem acreditasse. E muitos acreditaram,... Inclusive eu!
Tempo II
O ocaso da farsa revolucionária feneceu, pelo menos teoricamente, em 15 de março de 1990. Após 9.480 dias de arbítrio, tomava posse o primeiro Presidente da República civil eleito pelo voto direto do povo após 30 anos: Fernando Affonso Collor de Mello. Naquele ano eu completaria 44 anos e o Presidente tomou posse com 40.
Não fosse a obstinada erradicação de lideranças populares que os militares orquestraram, Collor não surgiria como uma tentativa pinçada no “bolso do colete” da recidiva elite brasileira que, com o decorrer dos anos tinha faniquito à simples referência do nome Lula. “O líder sindical seria a reedição de Jango”, diziam uns. “Encarnava o desejo da conquista do poder pela classe operária”, afirmavam outros. “Já não bastasse Jânio haver condecorado Che Guevara, Jango ter ido à China ouvir conselhos de Mao Tsé-Tung, agora seremos obrigados a engolir esse tal de Lula tentando reeditar o “Solidarnösc” de Lech Walesa”?
Político neófito, orador autoritário, herdeiro perdulário - afastado da empresa familiar para não comprometer os negócios com sua imagem de bon vivant - Fernando Collor emerge das oligarquias alagoanas [embora carioca de nascimento] ostentando a capa e a espada do “Cavaleiro da Legalidade, da Liberdade e da Igualdade”.
O empresariado brasileiro empenha-se no tour de force pela eleição de um narcisista com ares neoliberais, que no julgar desse empresariado, poderia conciliar regime democrático com privilégios à classe empresarial, já que a experiência com os militares se mostrara de execução atribiliária e produzira resultados duvidosos. No contracanto do slogan político de ”Caçador de Marajás” seus financiadores murmuravam outro tema: “-Tudo, menos Lula!”
Milhões, senão bilhões, aportaram nos cofres de Collor, pois, no recém fundado PRN não poderiam aportar legalmente. A quase totalidade das contribuições arrecadadas na cruzada anti Lula era sem origem contábil, que hoje os eufemistas denominam “recursos não contabilizados” mas que sempre foram conhecidos como ”Caixa Dois”.
A ânsia colaboracionista da direita brasileira foi tanta, que ao final, a campanha somou um custo ridículo diante das evidências dos gastos. Quando os responsáveis, Brasil afora, providenciavam os pagamentos - de cartazes, santinhos, comícios, jatinhos, outdoors, camisetas, bótons, bonés,..., - eram informados pelos fornecedores de que nada era devido e que o cancelamento do débito, pelo material entregue ou serviço prestado, era uma contribuição para a campanha.
A Rede Globo de Televisão, tida e havida como porta-voz oficial da Revolução de ’64, fez de tudo para promover a imagem de Collor, incluindo a edição épica do último debate entre seu protegido e o desafeto, levada ao ar como matéria do Jornal Nacional na véspera do escrutínio. Vários analistas afirmaram que tal providência fora decisiva para o resultado da eleição embora a legalidade dessa apresentação, à luz da legislação eleitoral, nunca foi contestada pelos tribunais.
Collor desconhecia uma característica peculiar do poder, ou seja: quem tem a investidura do verdadeiro poder não precisa de dinheiro, necessita sim da sustentação daqueles que lhe alçaram a este poder. A propósito dessa afirmação, minha memória lembra um fato muito pitoresco protagonizado por Jânio Quadros, quando concedia uma entrevista coletiva antes de licenciar-se do cargo de prefeito de São Paulo para uma viagem à Europa. Perguntado por um jornalista quem pagaria a viagem, uma vez que o prefeito fazia questão de afirmar não possuir recursos para tais extravagâncias, deu em resposta a seguinte afirmação: “-Gostaria de fumar um cigarro agora”. Imediatamente todos jornalistas fumantes pegam seus maços e num salto em direção à mesa que Jânio ocupava, cercaram-no de cigarros de diversas marcas. Mal escolhera uma das ofertas, vários isqueiros se prontificaram com fogo. Expressando um sorriso contido Jânio dispara: “- Outro dia, em uma reunião com amigos, expressei meu desejo de ir novamente à Europa antes de morrer...”. Vale lembrar que até os funerais de Jânio foram pagos por seus “amigos”.
Ao ser eleito, Collor presumiu estar investido de tanto poder e com tanto dinheiro à disposição, que não precisaria de mais ninguém para obter tudo o que desejasse. Pensou poder governar à sua feição, praticando os populismos demagógicos, pautados em atos traumatizantes como o Plano de Revitalização Econômica (Plano Collor) e em outros ciclópicos, como a abertura das importações, o Programa Nacional de Desestatização (em tímida tentativa neoliberal), cortes astronômicos no Orçamento Nacional (com duvidosa intenção de redução do déficit público), ...
A partir do momento da posse fez questão de ignorar as forças que o elegeram, se julgando quite por haver derrotado Lula nas urnas. Não era isso o que queriam? Pois estava feito, logo não devia mais nada a ninguém! Doravante seria do jeito dele! Alagoas no poder! (Bravata enunciada ao sogro do irmão Pedro, então Senador João Lyra, quando este o visitou no Planalto logo nos primeiros dias de governo).
As sobras de campanha teriam sido tão astronômicas que o velho adágio popular se estabeleceu: “Na vida há duas coisas que não se consegue esconder: doença e dinheiro”. Apartamento em Paris, jardins na Casa da Dinda, Operação Uruguai,..., foram conseqüências das sobras de campanha que atiçaram a personalidade hedonista do eleito. O resultado não poderia ser outro.
O comportamento acerbo e perdulário de Collor ensejou, a todas as lideranças que se sentiram traídas pelo seu governar, as coordenadas da trilha que culminaria no seu impeachment. E assim, em 02 de outubro de 1992, 932 dias após a posse do “Caçador de Marajás”, outra dourada esperança da gente brasileira transmutava-se nos tons cinza da incerteza e do desconsolo.
Tempo III
Com a renúncia de Collor - oferecida no momento em que tinha início na Câmara dos Deputados a votação do processo de impeachment - assume o Vice-Presidente, Itamar Augusto Cautiero Franco, mineiro de Juiz de Fora, integrado na chapa de Fernando Collor graças a um velho cacoete da política tupiniquim que decreta: no Brasil há que se agradar a gregos e mineiros.
Fazendo referência, para não dizer reverência, à política do café-com-leite que alternadamente mancomunou paulistas e mineiros no poder central da República entre os anos de 1895 e 1930, Itamar faz Fernando Henrique Cardoso seu ministro das Relações Exteriores, que embora nascido no Rio de Janeiro radicou-se e ganhou notoriedade em São Paulo. Outros ministérios importantes como Transportes, Trabalho, Meio Ambiente e da Amazônia Legal também foram oferecidos a paulistas. No mais, salvo algumas exceções, a extinta República das Alagoas renasceu como República das Minas Gerais.
Fracassada a tentativa de entronização do paladino alagoano era impensável outra experiência. Doravante as lideranças nacionais deveriam se unir em torno de alguém apto a representar os interesses do país com propriedade e maturidade política. Um homem respeitável e respeitado pela experiência, engajado, douto e de passado imaculado. Alguém que transpire os cânones do neoliberalismo de Friedman - modelo econômico contemporâneo que abjura a estatização pelo ônus que esta impõe ao déficit público, que por sua vez, é fator realimentador de inflação. É preciso que o Brasil se alinhe com as principais forças econômicas do planeta. É chegada a globalização!
Este foi o recado dado a Fernando Henrique Cardoso e o motivo determinante que lhe valeu a pasta das Relações Exteriores. Ao executar os périplos inerentes ao seu ministério, Fernando Henrique disse das suas intenções e colheu opiniões dos principais chefes de Estado do mundo. Uma dessas opiniões, sem a menor dúvida, teria sido a de que a inflação prevalecente no Brasil desalentava a confiança dos investidores. Havia necessidade de um plano eficiente de estabilização de preços e crível pelos agentes econômicos. Um plano competente, sem lucubrações acadêmicas, sem prestidigitações ou pirotecnias, aplicado progressivamente, cumprindo uma agenda previamente proposta à sociedade.
No início de maio de 1993, Fernando Henrique dá início à viagem que, em verdade, era uma reedição anual da via-crúcis da renegociação da dívida externa. Primeiro o Club de Paris, o sindicato de bancos europeus chefiado pelo BNP Parisbas. A seguir o sindicato de bancos americanos chefiados pelo Citibank. Nos Estados Unidos, às vésperas de retornar ao Brasil, Fernando Henrique cumpre o ritual de visitar o Presidente americano. Na saída do gabinete de Bill Clinton, no dia 21 de maio, Fernando Henrique é abordado pela imprensa que lhe informa a saída do mineiro Eliseu Resende do Ministério da Fazenda e que Itamar Franco já o anunciava como substituto do ministro exonerado. Fingindo surpresa Fernando Henrique desconversa e retorna à Brasília.
Em meados de junho, como Ministro da Fazenda, Fernando Henrique anuncia ao país as diretrizes e a agenda do que viria a ser conhecido como Plano Real. Um plano que teria início marcado para 27 de fevereiro de 1994, quando da criação da URV - Unidade Real de Valor, padrão monetário utilizado como âncora da moeda brasileira ao dólar americano. Em 01 de julho de 1994, ao ser perpetrada a substituição do padrão monetário Cruzeiro Real para simplesmente Real o plano estaria implantado.
Desta vez a reforma monetária não foi objeto de segredo ou privilégios. Não foi anunciada sob os efeitos de especulações e feriados bancários. Um raciocínio bem simples para o entendimento popular, que ensinava o convívio temporário do Cruzeiro Real com uma moeda criada para anular diariamente a perda inflacionária frente ao dólar americano, reduzir tensões e ansiedades, e que ao final teria seu nome mudado para Real quando os preços já estivessem alinhados e estáveis.
Naquele dia o mundo já sabia, nós não, que Fernando Henrique seria o Presidente eleito para consolidar o Plano Real durante os próximos oito anos, contados a partir de 01 de janeiro de 1995, apenas 184 dias após o Real haver nascido.
Começava a clarear um raciocínio que remetia à convicção de que a comunidade internacional tencionava trazer o Brasil para mais perto de si. Após seu surgimento o bloco Europeu estava em confronto direto com o NAFTA – North America Free Trade Agreement e o Brasil assumiria a liderança natural do Mercosul. Alinhar o Brasil significava trazer a reboque uma expressiva parcela da economia sul-americana para mais perto dos interesses europeus. Coincidência ou não, a verdade é que as pressões e exigências que historicamente cercavam a renegociação anual da volumosa dívida externa brasileira, cessaram progressivamente à medida que o processo de privatização era implantado.
Eleito em ’94 e reeleito em ’98, Fernando Henrique recuperou com competência a figura de chefe de estado, atributo subtraído há tempos do cargo presidencial. As ações de governo, no entanto, não corresponderam às expectativas gerais que se aninharam nas mentes dos brasileiros, ávidos e ansiosos por reformas de várias ordens: fiscal, tributária, previdenciária, eleitoral, política, trabalhista. A estratégia de privatizações mostrou-se desastrada e embora em alguns setores haja promovido avanços expressivos, em outros instaurou preocupações alarmantes. Comunicações e Energia são exemplos contraditórios que endossam tal afirmação. O desarranjo fiscal exacerbou-se elevando o saldo da dívida pública interna a inéditos percentuais do PIB, a despeito do significativo crescimento da arrecadação, promovido pelo aumento da carga tributária líquida e da recuperação de receitas via programas de renegociação de tributos não recolhidos.
Fiel à tradição da República Brasileira, os governos chefiados por Fernando Henrique conviveram com diversos escândalos. Denúncias de corrupção, de concussão, de fisiologismo, de nepotismo, de favorecimentos e privilégios. Dossiês circularam e mandatos foram cassados em meio a algumas CPI instauradas enquanto outras eram obstaculizadas. Apuração da verdade? Elucidação dos fatos? Punição de culpados? Qual o quê... Tradição perversa: não acuse hoje para que não seja denunciado amanhã.
Com a imagem brasileira revigorada no concerto das nações, não apenas pelo engajamento neoliberal, mas também, graças à política externa praticada pelo Itamaraty, o período Fernando Henrique se encerra melancolicamente no plano interno. Tantas promessas sem cumprimento por culpa debitada às crises que fustigaram o mundo, no período em que o Brasil tentava se reerguer combatendo seu arquiinimigo: a inflação.
Tempo IV
Exatos 50 dias antes que o General João Baptista de Oliveira Figueiredo, último presidente da ditadura militar tomasse posse, acontecia o IX Congresso de Trabalhadores Metalúrgicos, Mecânicos e de Material Elétrico do Estado de São Paulo. O evento foi sediado em Lins – cidade do interior paulista - e no dia 24 de janeiro de 1979 em meio aos painéis do congresso, foi posta à aprovação das lideranças do movimento sindical e de outros movimentos sociais ali representados, uma proposta dos metalúrgicos de Santo André que incitava os trabalhadores brasileiros a se congregar na constituição de um partido político próprio, ou seja, voltado exclusivamente para os interesses da classe.
Cerca de um ano depois, paradoxalmente, um dos símbolos da elite paulistana - o auditório do Colégio Sion - abrigou as 1.200 pessoas que aprovaram por aclamação o “Manifesto do PT”, documento que consolidaria a criação de um novo partido político. Era um domingo de verão, 10 de fevereiro de 1980, data em que o embrião concebido há 382 dias viria à luz. Nascia o Partido dos Trabalhadores e nele assistiríamos a metamorfose de uma liderança sindical em liderança político-partidária.
O surgimento do Partido dos Trabalhadores – PT foi possível graças à reforma partidária levada a efeito pelo governo militar. Nessa mesma ocasião, o MDB – Movimento Democrático Brasileiro incorporou à sua sigla a letra “P”. Até então, desde sua criação em 27 de outubro de 1965 após a implantação do bipartidarismo, o MDB era a única voz autorizada pela ditadura a entoar tímidos acordes de oposição ao regime. Exceção feita a um pequeno grupo de autênticos de primeira hora, onde se incluem Ulysses Guimarães, Tancredo Neves, Oscar Pedroso Horta, André Franco Montoro, entre outros, o MDB tornou-se o cadinho onde as mais controversas ideologias tentavam se amalgamar para permanecer na cena política do país e assim preservar do ostracismo as suas idéias.
O PT não teve destino diferente. Agravado pelo cariz acentuadamente socialista que albergou radicais de esquerda, acabou por ver subvertida a principal razão da sua existência: o trabalhador. Movimentos proscritos, revolucionários, adeptos e praticantes da luta armada, dizendo-se defensores da causa trabalhista, infiltraram-se entre os próceres do partido e foram aceitos em virtude da representatividade numérica que a Lei dos Partidos sempre exigiu. Crescer a qualquer preço comprometeria o futuro do PT.
Um discurso centrado em dois focos congêneres – combater a corrupção endêmica do setor público e fundamentar a ética no exercício da política brasileira – inebriou e cooptou quadros em diversos setores do pensamento brasileiro no decorrer dos anos. Recorrentes na inviabilidade das ideologias românticas que se aninham no socialismo paternalista, pseudo-intelectuais redigiram, nesses últimos vinte e cinco anos, uma arenga infectada de termos rançosos, de acepções imprecisas, generalistas e apóstatas dos verdadeiros eixos e princípios do pensamento e da sintaxe humanistas.
Mas, era previsível que a repressão imposta pela ditadura militar durante o quarto de século em que prevaleceu, fatalmente propiciaria à liberdade de expressão, quando não mais engasgada pela baioneta, a reação descontrolada que estimula a libertinagem ideológica sucessora dos regimes de força.
Confundir socialismo com assistencialismo foi o erro que enredou o PT no emaranhado de tendências internas contrapostas e renhidas na luta para definir qual a feição ideológica do partido. Fazer críticas ao modelo capitalista valendo-se de um discurso esgarçado e desbotado como é o socialista totalitário, regime que nos vários países onde foi implantado mostrou-se incompetente, anacrônico e vítima dos privilégios da burocracia, roubou ao PT uma oportunidade ímpar de mostrar a impetuosidade renovadora que pulsava na militância. Tornou-se entojado, modorrento, repetitivo e, principalmente, lento na tomada de posições. Dentre as práticas criticadas pelos opositores, a de reunir-se em deliberação pelos mais despropositadas pautas, impôs ao partido um ritmo procrastinatório que comprometeu seu desempenho na vida brasileira. Diz-se que no governo de Luíza Erundina frente à prefeitura de São Paulo, todos seus atos como chefe do executivo necessitavam do referendo “de meia-dúzia de barbudos” que se reuniam em comitê para deliberar sobre aquilo que cumpria à própria prefeita - e seu secretariado de governo - por força de um mandato. Recorde-se que este teria sido o motivo central da saída de Erundina do PT em 1997. Segundo os “companheiros” tal prática confirma o caráter democrático e participativo da militância do partido [?]. Aliás, uma prática antológica na U.R.S.S. entre 1917 e 1952, onde o Politburo era órgão integrante e atuante nos assuntos internos do Partido Comunista. Vê-se que não é de hoje que os petistas confundem partido com governo.
Pois bem, vinte e dois anos se passaram desde a fundação do PT. Ao longo desse período o partido foi conquistando importantes vitórias eleitorais majoritárias e ampliando progressivamente a ação parlamentar proporcional nos três níveis legislativos. Firmou-se nacionalmente encenando rompantes de intolerância ao Fundo Monetário Internacional, ao neoliberalismo, aos banqueiros nacionais, internacionais e às ditas classes dominantes. Recalcitrante no discurso pela ética e pela moralidade bradou vitupérios contra corruptos e corruptores. Mas, a grande aspiração de poder, a Presidência da República, não lhe era confiada. Foram três tentativas: uma contra Collor; duas contra Fernando Henrique.
Finalmente chegou a hora em que as elites, as oligarquias, o coronelato latifundiário, os banqueiros e, por que não dizer, o povo do Brasil cedeu aos cantos e encantos da sereia. Deixaram-se levar pelo suave embalo das ondas, abraçados ao acetinado sonho da mudança. A tão prometida mudança, decantada na voz enrouquecida do retirante, que zarpou de Garanhuns para ancorar nas plagas São Bernardinenses pelos caminhos do mar de Santos. Ufano nos brios pela pouca instrução e pelo fato de ser a mãe analfabeta, imprecou pelos microfones oficiais a catilinária recorrente dos demagogos contra o status quo em que o país lhe fora entregue. Herdara, segundo ele, a obra da descura dos antecessores e da pérfida ambição pessoal de integrantes dos grupos palacianos obstinados pelo poder.
Programas sociais seriam o alvo principal da artilharia demagógica do governo. Fome Zero; Bolsa Família; Renda Mínima; Agricultura Familiar; Micro Crédito; Crédito Consignado; Universidade para Todos e tantos outros “Me dá, me dá”... Mas para isso é necessário dinheiro. Bem, então há que se aquietar credores. Acorde-se com o FMI. Aufira-se superávit primário restringindo o orçamento nacional da saúde, de investimentos em setores estratégicos como geração de energia, construção e manutenção de estradas, ampliação da capacidade portuária,...
Ué, que coisa mais neoliberal! Não?
Dissidência nos quadros; expulsões de autênticos! Palavras de ordem contra a política econômica neoliberal continuísta; contra a intolerável taxa de juros que acelera a transferência de renda para o setor financeiro em nome do controle da inflação. Aumento de carga tributária. Reforma tributária e previdenciária insípidas e frustrantes. Desemprego crescente no governo que prometera 10 milhões de novos postos de trabalho.
E agora José? Vai-te embora pra Passárgada? Quebra, mas não verga.(?)
Ressuscitado após trágica morte durante o crepúsculo do czarismo russo, Grigori Efimovitch Novikn, o Rasputin, reencarna redivivo e sem barbas. Assoma a figura do ex-líder estudantil marcado como terrorista na época do arbítrio, que saboreou a desdita do exílio após haver sido objeto de troca no resgate do embaixador americano Charles Elbrick em setembro de ’69. José Dirceu de Oliveira e Silva, Ministro Chefe da Casa Civil da Presidência da República, não é mais o favorito da czarina Alexandra Feodorovna, porém, é o favorito histórico do agora presidente Luíz Inácio Lula da Silva. Atavismos reafirmam-se nas atitudes arrogantes da reedição lúgubre do monge que nunca foi ordenado, mas esconde atrás de um timbre de voz suave, com acento caipira, o despotismo arraigado no caráter que pauta seu proceder. O escândalo das cartas insidiosas atribuídas à czarina que deram início à queda de Rasputin – “o depravado” em idioma russo – e que promoveram as conspirações que decretaram sua morte em 1916, desta vez não foram o estopim da bomba, mas sim, o descumprimento de acordos espúrios com políticos de uma base de sustentação congressual alinhavada com subterfúgios e fértil em suspeitas.
Vinte e cinco anos depois daquele 10 de fevereiro que marcou sua fundação, o Partido dos Trabalhadores em companhia de mais de 63 milhões de eleitores, presencia durante o átimo de um piscar de olhos o castelo das esperanças desmoronar como se de cartas fosse. Um suceder de denúncias e envolvimentos escandalosos de personalidades da vida política brasileira, eviscerou uma crise moral e de princípios éticos sem precedentes desde a descoberta dessa Terra de Santa Cruz no século XVI.
A reação esperada pela sociedade brasileira não poderia ser outra que o violento repúdio por parte do governo e dos dirigentes do partido, aos que traíram sua própria história na tentativa, ainda sob suspeita, de erigir a perenidade no poder. No entanto, o que se vê é um movimento desordenado, sem coesão, esboçando argumentos de defesa para, ao invés de mitigar evidências irrefutáveis, acusar antecessores com intenção de desagravar os feitos ilícitos por não serem práticas originais. Comportamento de meninos de escola como diriam os portugueses.
Tomados por ineptos somos todos nós, cidadãos dotados com um mínimo de consciência cívica, relegados ao plano raso da estupidez. A amnésia repentinamente devasta a memória recente de todos convocados a depor ou prestar esclarecimentos nos institutos legalmente habilitados à averiguação e investigação dos fatos.
Contradições espalham-se qual praga em terreno fértil. Desmentidos sucedem discursos panfletários que tentam em vão, ora isolar o Presidente da República da crise, ora refutar como calúnias as acusações contra os que se auto-intitulam homens de bem por terem família e filhos a preservar. E a nós povo, quem preserva ou ao menos respeita?
Sempre claudicante nos plurais e na concordância, o discurso presidencial enfatiza a apuração incondicional dos culpados com aditamento de punição exemplar. Em contrapartida constata-se uma fuga geral ao enfrentamento da situação. Nem mesmo o ex-tesoureiro “não contabilizado” recebeu, até este momento, qualquer punição do partido. “Cortar na própria carne se preciso for”.(?) Assim falou Lula!
O elenco pródigo em figurantes como Valérios, Delúbios, Silvinhos, Dudas e Karinas, com participação especial de Simones e Zilmares e não menos pródigo em estrelas como Dirceus, Gushikens e Severinos, continua encenando a tragicomédia de horror que nos decepciona, assusta e adverte.
Onde iremos parar?
Não sei, mas é certo que outros ídolos messiânicos, evangélicos talvez, tentarão a todo custo se locupletar com a nossa sina. Há entre nós muita ignorância com direito a voto e o poder não admite vazio. Esse é o duro preço de uma democracia perversa, que possibilita a livre escolha dos nossos próprios algozes.
O. A. Siqueira Jr.