terça-feira, 5 de setembro de 2006

UMA TURMA INTEIRA DE "TAVARES"

Francisco Anysio de Oliveira Paula Filho, ator, compositor, escritor, pintor e, para muitos, o maior humorista que o Brasil revelou, nasceu em Maranguape no Ceará de onde partiu para expressar uma insólita sensibilidade moldada em genial competência nas artes.

Retirados do cotidiano nacional, os inúmeros personagens que criou fizeram parte do convívio de pessoas de todas as classes sociais brasileiras por mais de uma geração. Cada um deles era reconhecido por um bordão que foi repetido pela boca do povo, sempre e quando uma situação peculiar lembrasse o comportamento do tipo que o personagem encarnava.

Uma dessas caricaturas era moldada na figura de um carioca, assim reconhecida pelo acentuado sotaque, ostentando uma farta cabeleira “englostorada” fazendo par com um bigode igualzinho ao do “Amigo da Onça”. Óculos escuros e paletó xadrez rematavam a caracterização. A humanização revelava um malandro embriagado que, ostentando permanentemente um copo com gelo e whisky, contracenava com a saudosa Zezé Macedo no papel de uma donzela um tanto avançada nos anos, filha de pai rico, a quem ele tratava por “Biscoito”.

Inocente e desprovida de qualquer beleza física, “Biscoito” era apaixonada por seu noivo e a despeito de todas as “enganações” a que era submetida, aceitava tudo com resignação para não correr o risco de perder seu amado, a quem atribuía incondicional fidelidade e honestidade acima de tudo. Ao final da encenação de cada quadro, “Biscoito” ao ser contrariada em alguma vontade, agia como garotinha mimada e desfiava um rosário de impropérios ao insensível consorte. Este, debochando um sorriso irônico e arrastando o embriagado sotaque, meneava o copo tilintando os cubos de gelo quando então se virava para o olho da câmera e decretava seu bordão:

- “Certo Biscoito! Sou, mas, ... quem não é?”

Esse era o Tavares que nos fez rir muitas noites de quintas-feiras ocasião em que ia ao ar o programa “Chico Anysio Show”.

Apesar de não mais alegrar as noites de quintas-feiras Tavares é redivivo, e mais, clonado em múltiplos exemplares. Uma verdadeira “Turma de Tavares” assume a cena nacional. A nós, povo brasileiro, sem que para tal fôssemos consultados, cabe o desditoso papel de “Biscoitos”.

Frustrados na esperança de ver o Brasil amadurecer no convívio pautado pelos valores morais e éticos, fiel às instituições democráticas conquistadas, singrando as águas do Estado de Direito, somos relegados ao papel bufo de ingênuos explorados. E tal e qual “Biscoitos”, ao nos rebelarmos pelo não atendimento de nossas vontades republicanas, ouvimos os “Tavares” escorcharem nossos sonhos e decretarem seu pífio bordão: - Sou, mas, ... quem não é? Posta a analogia, cínica e talvez inapropriada diante da gravidade dos fatos, hora se faz de reagir.

Armas intelectuais se assestadas contra o desmando a desonra e a ignomínia pouco efeito produzem. Por outro lado, a truculência desabona a sensatez e recalcitra o dissenso. Inquirir o passado em nada contribui para a construção do futuro, prova está no status quo que nos moveu para a atual digressão.

“Sim fiz, porém, outrem já o fizera”. Esta é a justificativa do medíocre, do opróbrio, do abjeto. Escudar-se em discursos inflamados no combustível do ódio é próprio dos desajustados que baseiam sua razão na incoerência.Que fazer então?

Sabe-se lá! Instalou-se no país uma crise de autoridade. Sim, uma crise de autoridade visto que não há vazio de poder. O poder está constitucional e legalmente instalado e atuante nas suas diferentes instâncias, apesar da conveniente abstinência de autoridade do Presidente da República.

Eleições? Quem sabe, o “mensalão dos programas sociais” não haja sido suficiente para corromper o discortínio dos simples e dos simplórios cidadãos brasileiros? Quem sabe não se auto reconhecerão vitímas dessa indencente bazófia protagonizada na cena política brasileira e ao se lhes oportunizar as urnas saibam honrar sua origem simples sempre pautada na dignidade e retidão de comportamento?

Com a ajuda de Deus nos resta dizer: - Que assim seja!


O. A. Siqueira Jr.


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