domingo, 26 de julho de 2009

SEÇÃO DE CLASSIFICADOS NO DOU?

"Trudia" tive em mãos um exemplar do Diário Oficial da União, conhecido pela sigla DOU. Não é de se perguntar, dá o quê a quem? Bem, deixemos os prolegômenos de lado e vamos ao fato que me causou espécie.

Folheava a citada publicação, tranquilamente, fazendo aquele movimento de abrir braços para olhar duas páginas simultaneamente, seguido de um meneio de cabeça (como se assistisse a um jogo de tênis) e, fechar braços novamente para, com a ponta do polegar da mão esquerda, selecionar as próximas duas páginas. Eis que, não mais que isso, me deparo com algo estranho. A princípio me pareceu ser um anúncio classificado!

E não é que era...!!! Mas como? Será possível publicar classificados no DOU? Refleti atônito. A quem haveria sido “DOUada” a inusitada oportunidade?

Como qualquer mortal, tomado de espanto, me pus a ler o tal anúncio.

Não faria o menor sentido tecer comentários a respeito, portanto, prefiro reproduzir a íntegra do conteúdo estupefaciente.


PROCURA-SE NETA PARA NAMORAR!

Moreno, alto, bonito e sensual procura neta para namorar.

Talvez eu seja a solução do seu problema. Carinhoso, bom nivel social.

Inteligente e à disposição para um relacionamento íntimo e discreto. Realize seu sonho sexual!

Pronto para qualquer tipo de transação, sem compromisso emocional. Só financeiro.

Sou aquele amante à moda antiga, do tipo que ainda manda flores e, apesar da minha idade e, da cara meio inchada, ainda chamo de querida a namorada.

Olhos verdes, cabeleira farta em permanente desalinho e “tico-tico no fubá” (nem casado nem solteiro. Sei lá, entende? Enfim!). Um pouco avançado nos anos, porém, em plenas condições de uso e desfrute. A toda prova para a revisão dos “51.000 km”. Politicamente incorreto.

Predicados exigidos das candidatas ao cacho:

• pertencer a uma família de políticos influentes ou, então, de membros atuantes da ARECON (Associação Regional dos Coronéis Nordestinos), mantendo estreitos laços de amizade e apadrinhamento com empresários corruptores. Dar-se-á preferência àquelas que tenham avô senador e pais atuantes em nepotismo cruzado.

• aparência impecável, não somente dos atributos físicos, como também, no vestir e no comportamento em público. Barangas me perdoem, mas, ser um “BixoBão” é pré requisito homologatório!

• comprometer-se com os interesses do namorado.

• experiente no manejo de telefones celulares SmartPhones (BlackBerry, iPhone, etc).

• doutorada em Ocultismo com especialização em Atos Secretos.

• graduada em redação e despacho de requerimentos, petições, aditamentos de orçamentos, etc.

• praticante de clientelismo e fisiologismo; vivência em “trens da alegria”.

É fator preponderante possuir uma agenda com telefones e e-mails de políticos e correligionários de destaque na cena política nacional.

Preferências do Pretendente:

• auxílios específicos para as despesas com:

•• moradia,

•• segurança pessoal,

•• barbearia e cabeleireiro,

•• academia de fitness,

•• seguro saúde (vitalício, é claro),

•• assistentes,

•• empregados domésticos e...

...o que mais houver à disposição.

• “mesa branca” em restaurantes finos.

• passagens aéreas de cortesia.

• reembolso de despesas de viagem.

• automóveis importados com chapa branca e chofeur.

• apropriação de dinheiro público.

• negociatas e quetais.

Detesto e abomino a imprensa, a Polícia Federal, Leis em geral e “Meu nome na boca de Matildes”, (conforme preconizou o eminente Jô Soares).

Povo? Nem em foto!

Ajuda de Custas (Afinal, tudo são processos...)

Proporcional aos proventos auferidos pela atuação da eleita. Gratificação anual a combinar.

Interessadas devem enviar Curriculum Vitæ, com foto, para lero-lero@eutambemquero.com.br ou para o escritório do ex-suplente de senador Wellington “Sansão” Salgado - Praça dos Três Phoderes - Barraca SenadoFede - Brasinha - DF (Dinheiro Fácil)


O. A. Siqueira Jr.


NOTA: Os trechos em cor azul foram retirados das letras de “Amante Profissional” e “Amante à Moda Antiga”, respectivamente, composições da banda “Herva Doce” e Roberto/Erasmo Carlos. Não perca na seção "Clique & Ouça", na barra lateral, “O Clipe da Neta Namorada” interpretado por Painho & Co. com os trechos selecionados. Na mesma seção, ouça as duas músicas na íntegra.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

UMA NOTA DIRIGIDA AO HOMEM PÚBLICO BRASILEIRO

A cada dia fico mais indignado, confuso e revoltado com a quantidade de denúncias envolvendo nomes ligados, direta e indiretamente, aos integrantes da classe política brasileira. Algumas revestidas de tal gravidade que, confesso, fico propenso a duvidar.

Uma epidemia de desordem e descaramento contaminou todos os poderes constituídos, nos três níveis de poder e nos respectivos departamentos. Autoritarismo verborrágico, desmandos e corrupção!

Não vou me ater a exemplos, pois, são tantos e de tal variedade que, ainda que ilustrassem, não seriam suficientes para dimensionar o exato grau de vilipêndio contra evidentes princípios de decência, honestidade, honradez, consciência democrática e espírito republicano. Ademais, são de domínio público os atos, fatos, valores, personagens e instituições envolvidos nos escândalos denunciados, dispensando citações específicas diante da generalidade flagrante.

As mentiras e falsidades proferidas nas declarações e pronunciamentos são constrangedoras. Não somente pela fragilidade de argumentação, como pela indiferença estampada nos rostos e serenidade nas vozes de quem as profere. Tenho a impressão que logo após o escárnio, seus autores tem dificuldades para conter as gargalhadas. Um estelionato intelectual aditado ao pecuniário e ao patrimonial.

É tão evidente a falta de decoro que a existência de Comissões de Ética é dispensável, mesmo porque não cumprem seu desiderato, ao contrário, seus membros se aliam nos compadrios sob o falso manto da legalidade regimental. Ora, um regimento que prescreve o tratamento de “Vossa Excelência”, portanto, segunda pessoa do plural, quando o correto seria “Sua Excelência”, terceira pessoa do singular, tempo verbal utilizado tanto nos debates entre os parlamentares, quanto em seus discursos e pronunciamentos. Uma prosopopéia burlesca que bem ilustra a semialfabetização de tantos detentores de mandatos eletivos.

A volubilidade ideológica é manifesta sempre e quando se viabilizam conluios que beneficiem os interesses inconfessáveis que premiam o oportunismo. Mudança de posição, de partido, fragilidade de caráter, ganância desmedida, não importa! O que vale mesmo é o quanto se aufere, seja em vantagens, cargos ou dinheiro em espécie. Dinheiro este, público, arrecadado por via de uma política fiscal desbalanceada, injusta, incongruente, obsoleta, inconsistente e indecente.

Se ve de tudo nos parlamentos brasileiros, desde alegorias capilares em ambos os sexos, trajes inapropriados, descura com a aparência física, desconhecimento do idioma, falta de postura adequada no atendimento à midia, até o cabotinismo hilário de pretensos senhores da virtude. Como diz a sabedoria popular: “Se cercar é pasto, se cobrir é circo”

Triste realidade a do Brasil. E não é de hoje! Pior, será ainda por longo tempo, pois, já não se educam cidadãos como se fazia antes que sucessivas súcias se assenhoreassem do poder e, pelos interesses continuístas, sufocassem a formação de homens de bem. Não haverá reformas de base que destituam do poder os bandoleiros que dele se apossaram graças aos votos incautos dos ignorantes, que por desdita são a maioria esmagadora do povo. Pobre minoria “esmagada”.

Em 1973 Ronaldo Monteiro de Souza escreveu uma letra, Ivan Lins uma música e, ambas, deram origem à “Deixa Eu Dizer”. Um repto ao regime que amordaçava o Brasil. Neste mesmo '73 a cantora Claudia, com uma notável interpretação, incluiu-a no LP de mesmo nome. Leia a letra da música e você entenderá o que sinto ao escrever e...

...Por enquanto é só!



O. A. Siqueira Jr.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

A "VELHA CAMISA DE GOLA ROULÉ"

Era um dia quente de fevereiro, lá pelo ano 2000.

Eu estava na casa de Izabel quando ela se aproximou com algo de cor verdemusgo nas mãos e me perguntou:

- Você gosta desta camisa? Eu trouxe da Argentina o ano passado, mas até hoje não usei.

Quando foi desdobrada, vi que se tratava de uma linda camisa de malha dupla de algodão com gola roulé.

- Gosto sim! Respondi.

- Você ainda não usou por ser uma camisa de inverno? Perguntei estranhando o comentário dela.

- Não, não! Sei lá, de repente não gosto mais da cor. Quer pra você?

- Claro que sim, além de gostar da cor, também gosto muito de gola roulé.

- Então ela é sua, tenho certeza que ficará muito bem em você.


Agradeci Izabel com um beijo na face e, recebendo o presente, senti que naquele momento estava nascendo uma agradável relação entre eu e minha nova “velha camisa de gola roulé”.

Estávamos no verão. Olhando para a camisa em minhas mãos lamentei que não estivesse frio, um mínimo que fosse, para eu poder vestir e avaliar o conforto que ela me ofereceria. Afinal, uma camisa de malha se amolda qual uma segunda pele e, como tal, passa a fazer parte da nossa intimidade. Se o coração bater mais acelerado ela é a primeira a sentir, se coramos de vergonha ela é a primeira a notar a temperatura do corpo.

É no frio, porém, que ela mostra ao que veio. Torna-se a guardiã do peito, das costas, dos braços. Não esqueçamos do pescoço, pois, para que serve uma gola “roulé”? Não há abraço, por mais afetuoso e envolvente que seja, comparável ao de uma “velha camisa de gola roulé”.

Aguardei pacientemente que o dia chegasse. O dia em que a vestiria por vez primeira. Toda vez que abria a gaveta da cômoda, lá estava ela como a me perguntar: - Então, quando será nosso grande momento? Meio agitado eu desviava o olhar e tentava descobrir quantos faltariam para que, finalmente, chegasse um dia frio e nos proporcionasse esse grande momento.

Nos primeiros dias de inverno daquele ano o frio não se manifestara e parecia que teríamos um inverno muito ameno. Fiquei preocupado!

Todas as manhãs ligava o rádio cedinho para ouvir a previsão do tempo. As decepções se sucediam, mas, um belo dia veio a previsão ansiosamente esperada: “O dia hoje será frio por conta de uma frente de ar polar que se aproxima da capital. Mínima de 10º e máxima de 21º.” Uma voz dentro de mim gritou: - Eeeiiittttccchhhaaa!!! É hoje...

O “hoje” era uma quarta-feira que não insinuava qualquer estímulo para um programa, mesmo que fosse jantar fora, coisa que se faz mais às sextas e sábados. Nenhum aniversário, nenhuma visita programada para fazer ou receber, um "batizadinho" que fosse...

Que fazer? Depois de tanto tempo esperando não iria perder essa oportunidade. Quem sabe quanto tempo demoraria a vir outra frente polar? Não senhor, tem que ser hoje!

Fui para o trabalho pensando num programa que justicasse estrear minha nova “velha camisa de gola “roulé”. Perguntei a vários colegas o que cada um iria fazer à noite na esperança de um convite, desde que o traje não fosse social. Só faltava arranjar um programa de terno e gravata!

Acabada a jornada de trabalho, sem nada acertado para a noite, fui embora visivelmente cabisbaixo. Entrei em casa e fui logo tomar banho. Enquanto me despia... Eureka! 

Uma idéia me ocorreu. Por que não convidar a vizinha do apartamento ao lado para vir ao meu e saborearmos um bom vinho? Eis a oportunidade para estrear minha nova “velha camisa de gola “roulé”!

Vesti um conjunto de moleton e fui bater à porta do 238. Aguardei com os pulsos latejando de ansiedade.

- Pois, não? Disse uma voz aveludada pelo postigo e emendou:

- Ah! É você? Entre, disse ela abrindo a porta...

Agradeci e formulei o convite. Ela meneou a cabeça como quem pensasse a respeito, esboçou um sorrizinho maroto e aceitou, não sem antes solicitar um "tempinho" para se arrumar um "pouquinho". Pensei comigo, "tempinho"?

Voltei correndo para o banho. Caprichei nos detalhes, no perfume e, finalmente, chegou o momento. Vesti minha nova “velha camisa de gola “roulé” lentamente, sentindo cada centímetro da sua malha acariciando progressivamente minha pele. Confesso, meio acabrunhado, que a sensação teve algo de sensual.

À medida que ela - a minha nova “velha camisa de gola “roulé” - foi deslizando pelo pescoço, braços e tronco, constatava que ela ficaria muito bem em mim, confirmando aquilo que a Izabel previu ao me presentear. Fiz questão de combinar todas outras peças que vesti com a tonalidade verdemusgo dela. Calça em meio tom de havana, meias verdemusgo, mocassin cor de conhaque igual a da cinto. Me olhei no espelho e vendo nossa imagem juntos senti um calorzinho gostoso no peito. Bah!

Estava eu entregue às sensações proporcionadas pela minha nova “velha camisa de gola “roulé”, quando soou a campainha. Pensei..., já? Não me dera conta de que quase uma hora se passara desde que convidei a Sônia - este é o nome da vizinha do 238 - para desfrutarmos um Chateauneuf Du Pape, 1964. E eu que, com os meus botões, fiquei irritado com o “tempinho” que ela pediu para se arrumar um “pouquinho”...

Quando atendi à porta, Sônia me “escaneou” de cima a abaixo com um olhar daqueles e sorrindo exclamou: - Nooooossssaaa que gatinho!!!!


Não foi sem tempo que o dia chegou. Além de desfrutar de uma agradável companhia, de um bom vinho, experimentei a sensação indescritível que minha nova “velha camisa de gola “roulé” proporcionou. Seu tato surpreendente, corte impecável, cor relaxante, só fizeram realçar sua discreta beleza.

Foi assim que teve início nossa relação homem-camisa. Sempre que torno a vesti-la, um filme passa pela minha mente relembrando aquele dia. Com o passar do tempo o sentimento continua o mesmo, mas, por efeito de tantas lavagens sua cor está um tanto esmaecida sugerindo as cãs de uma bela senhora. Tantas e quantas vezes nos unimos para curtir festas, passeios, jantares, coquetéis... Sempre me aquecendo com seu abraço de acalanto, exibindo seu porte nobre e atraindo olhares de inveja. Fico triste em pensar que chegará o dia em que teremos que nos separar, mas o tempo é inclemente.

Virá o dia em que minha “velha camisa de gola “roulé” nova, alcançará a condição de “velha camisa de gola “roulé” velha. Nesse dia eu a guardarei lavada e bem dobrada num cantinho especial da gaveta de camisas. Depois disso sempre lembrarei dela como minha querida “velha camisa de gola “roulé” velha.


O. A. Siqueira Jr.


Essa crônica é dedicada à minha querida e velha amiga Izabel F. Fry