quinta-feira, 16 de julho de 2009

A "VELHA CAMISA DE GOLA ROULÉ"

Era um dia quente de fevereiro, lá pelo ano 2000.

Eu estava na casa de Izabel quando ela se aproximou com algo de cor verdemusgo nas mãos e me perguntou:

- Você gosta desta camisa? Eu trouxe da Argentina o ano passado, mas até hoje não usei.

Quando foi desdobrada, vi que se tratava de uma linda camisa de malha dupla de algodão com gola roulé.

- Gosto sim! Respondi.

- Você ainda não usou por ser uma camisa de inverno? Perguntei estranhando o comentário dela.

- Não, não! Sei lá, de repente não gosto mais da cor. Quer pra você?

- Claro que sim, além de gostar da cor, também gosto muito de gola roulé.

- Então ela é sua, tenho certeza que ficará muito bem em você.


Agradeci Izabel com um beijo na face e, recebendo o presente, senti que naquele momento estava nascendo uma agradável relação entre eu e minha nova “velha camisa de gola roulé”.

Estávamos no verão. Olhando para a camisa em minhas mãos lamentei que não estivesse frio, um mínimo que fosse, para eu poder vestir e avaliar o conforto que ela me ofereceria. Afinal, uma camisa de malha se amolda qual uma segunda pele e, como tal, passa a fazer parte da nossa intimidade. Se o coração bater mais acelerado ela é a primeira a sentir, se coramos de vergonha ela é a primeira a notar a temperatura do corpo.

É no frio, porém, que ela mostra ao que veio. Torna-se a guardiã do peito, das costas, dos braços. Não esqueçamos do pescoço, pois, para que serve uma gola “roulé”? Não há abraço, por mais afetuoso e envolvente que seja, comparável ao de uma “velha camisa de gola roulé”.

Aguardei pacientemente que o dia chegasse. O dia em que a vestiria por vez primeira. Toda vez que abria a gaveta da cômoda, lá estava ela como a me perguntar: - Então, quando será nosso grande momento? Meio agitado eu desviava o olhar e tentava descobrir quantos faltariam para que, finalmente, chegasse um dia frio e nos proporcionasse esse grande momento.

Nos primeiros dias de inverno daquele ano o frio não se manifestara e parecia que teríamos um inverno muito ameno. Fiquei preocupado!

Todas as manhãs ligava o rádio cedinho para ouvir a previsão do tempo. As decepções se sucediam, mas, um belo dia veio a previsão ansiosamente esperada: “O dia hoje será frio por conta de uma frente de ar polar que se aproxima da capital. Mínima de 10º e máxima de 21º.” Uma voz dentro de mim gritou: - Eeeiiittttccchhhaaa!!! É hoje...

O “hoje” era uma quarta-feira que não insinuava qualquer estímulo para um programa, mesmo que fosse jantar fora, coisa que se faz mais às sextas e sábados. Nenhum aniversário, nenhuma visita programada para fazer ou receber, um "batizadinho" que fosse...

Que fazer? Depois de tanto tempo esperando não iria perder essa oportunidade. Quem sabe quanto tempo demoraria a vir outra frente polar? Não senhor, tem que ser hoje!

Fui para o trabalho pensando num programa que justicasse estrear minha nova “velha camisa de gola “roulé”. Perguntei a vários colegas o que cada um iria fazer à noite na esperança de um convite, desde que o traje não fosse social. Só faltava arranjar um programa de terno e gravata!

Acabada a jornada de trabalho, sem nada acertado para a noite, fui embora visivelmente cabisbaixo. Entrei em casa e fui logo tomar banho. Enquanto me despia... Eureka! 

Uma idéia me ocorreu. Por que não convidar a vizinha do apartamento ao lado para vir ao meu e saborearmos um bom vinho? Eis a oportunidade para estrear minha nova “velha camisa de gola “roulé”!

Vesti um conjunto de moleton e fui bater à porta do 238. Aguardei com os pulsos latejando de ansiedade.

- Pois, não? Disse uma voz aveludada pelo postigo e emendou:

- Ah! É você? Entre, disse ela abrindo a porta...

Agradeci e formulei o convite. Ela meneou a cabeça como quem pensasse a respeito, esboçou um sorrizinho maroto e aceitou, não sem antes solicitar um "tempinho" para se arrumar um "pouquinho". Pensei comigo, "tempinho"?

Voltei correndo para o banho. Caprichei nos detalhes, no perfume e, finalmente, chegou o momento. Vesti minha nova “velha camisa de gola “roulé” lentamente, sentindo cada centímetro da sua malha acariciando progressivamente minha pele. Confesso, meio acabrunhado, que a sensação teve algo de sensual.

À medida que ela - a minha nova “velha camisa de gola “roulé” - foi deslizando pelo pescoço, braços e tronco, constatava que ela ficaria muito bem em mim, confirmando aquilo que a Izabel previu ao me presentear. Fiz questão de combinar todas outras peças que vesti com a tonalidade verdemusgo dela. Calça em meio tom de havana, meias verdemusgo, mocassin cor de conhaque igual a da cinto. Me olhei no espelho e vendo nossa imagem juntos senti um calorzinho gostoso no peito. Bah!

Estava eu entregue às sensações proporcionadas pela minha nova “velha camisa de gola “roulé”, quando soou a campainha. Pensei..., já? Não me dera conta de que quase uma hora se passara desde que convidei a Sônia - este é o nome da vizinha do 238 - para desfrutarmos um Chateauneuf Du Pape, 1964. E eu que, com os meus botões, fiquei irritado com o “tempinho” que ela pediu para se arrumar um “pouquinho”...

Quando atendi à porta, Sônia me “escaneou” de cima a abaixo com um olhar daqueles e sorrindo exclamou: - Nooooossssaaa que gatinho!!!!


Não foi sem tempo que o dia chegou. Além de desfrutar de uma agradável companhia, de um bom vinho, experimentei a sensação indescritível que minha nova “velha camisa de gola “roulé” proporcionou. Seu tato surpreendente, corte impecável, cor relaxante, só fizeram realçar sua discreta beleza.

Foi assim que teve início nossa relação homem-camisa. Sempre que torno a vesti-la, um filme passa pela minha mente relembrando aquele dia. Com o passar do tempo o sentimento continua o mesmo, mas, por efeito de tantas lavagens sua cor está um tanto esmaecida sugerindo as cãs de uma bela senhora. Tantas e quantas vezes nos unimos para curtir festas, passeios, jantares, coquetéis... Sempre me aquecendo com seu abraço de acalanto, exibindo seu porte nobre e atraindo olhares de inveja. Fico triste em pensar que chegará o dia em que teremos que nos separar, mas o tempo é inclemente.

Virá o dia em que minha “velha camisa de gola “roulé” nova, alcançará a condição de “velha camisa de gola “roulé” velha. Nesse dia eu a guardarei lavada e bem dobrada num cantinho especial da gaveta de camisas. Depois disso sempre lembrarei dela como minha querida “velha camisa de gola “roulé” velha.


O. A. Siqueira Jr.


Essa crônica é dedicada à minha querida e velha amiga Izabel F. Fry



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